Estácio de Sá - O verdadeiro Berço do Samba

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O bairro do Estácio de Sá é indiscutivelmente o berço do samba carioca. Centro da grande "malandragem" do princípio do século, vizinho da Praça Onze e do Mangue (Zona), foi passagem de todos os grandes sambistas que, na época, surgiram no Rio - da Mangueira à Portela, passando pelos compositores e cantores do rádio que, em pleno desenrolar da "década de ouro do samba", lá iam garimpar a base de seu repertório, sambas maravilhosamente eternos. Francisco Alves, o Rei da Voz, cantor mais famoso do Brasil à época, é o principal exemplo.

Os botequins da região, a proximidade com a Praça Onze e da Zona do Mangue, atraíam malandros de todas as partes do Rio, alguns deles excelentes sambistas. Vinha gente de Benfica, Madureira, Providência e Gamboa. Ali era cenário para o meretrício e para as rodas de carteado. Bar Apolo, Café do Compadre...a vida noturna intensa garantiu ao Estácio a aura de Berço do Samba carioca - o “samba de sambar” aquele que conhecemos até hoje, dolente, pausado e marcado por instrumentos de percussão.

Não é à toa que a malandragem sempre esteve associada ao Rio de Janeiro, berço do samba. Tampouco é fruto do acaso o fato de a primeira escola de samba carioca, a "Deixa Falar", ter nascido no bairro do Estácio, tradicional reduto da massa de desocupados e trabalhadores informais, dedicados a jogatina e exploração de mulheres naquele alvorecer dos anos 30. Eram os chamados "bambas" que se reuniam nos botecos em culto à boemia e tudo mais que estivesse associado. O início resume-se nas destacadas figuras de Mano Edgar, Alcebíades Barcelos (Bide), e seu irmão Rubens, Armando Marçal, Ismael Silva, Baiaco, Brancura, Nilton Bastos, Aurélio e tinha como frequentador Juvenal Lopes ("Nonel do Estácio ou "Juju das Candongas"), que mais tarde se mandou para a Mangueira, onde chegou à presidência e Heitor dos Prazeres.

A reunião que fundaria o bloco carnavalesco foi realizada no dia 12 de agosto de 1927, no nº 27 da Rua Maia de Lacerda, casa de um sargento da Polícia Militar, pai do Bijú, senhor Chystalino. Como nas imediações funcionava uma Escola Normal que formava professores para a rede escolar, Ismael Silva resolveu batizar seu grupo de Escola de Samba. “Havia aquela disputa com Mangueira, Oswaldo Cruz, Salgueiro, cada um querendo ser melhor, e o pessoal do Estácio dizia: deixa falar, é daqui que saem os professores. Daí é que veio a ideia do nome escola de samba”, conta o compositor ao jornalista Sérgio Cabral em seu livro As Escolas de Samba (1974).

A Deixa Falar durou pouco tempo, desfilando na Praça Onze nos carnavais de 1929, 1930 e 1931.

Naquela época, quem saía dentro da corda eram o baliza Gaguinho, a porta-estandarte Caboquinha, o Chico Macaú que encourava barricas de vinho para a bateria reforçada do Bloco da Carestia, em cuja casa havia Umbanda, Jongo e Caxambu e a gente que vinha dos trabalhadores do cais, operários, artesãos, gráficos e ambulantes aos quais se juntavam malandros, cafetões e boêmios em geral. Entre as cabrochas estavam: Anastácia do Nino, Celeste, Rosália, Odetinha, Agripina, Julieta, senhoras de respeito que faziam o coro de canto ou a fila de baianas. Entre os malandros batuqueiros, Bujú Velho, Gaguinho, Paulo Grande, Dadá Mulato, Alemãozinho, Neca Bonito e o maior malandro de todos os tempos do Estácio, Nino da Anastácia. Tinha ainda os mais esquecidos, os importantíssimos homens da corda como Jorge Burundú (da “Cada Ano Sai Melhor”), João Pimentão (da “Paraíso das Morenas”), e o Milú (da “Recreio de São Carlos”), gente que fazia questão de se expor, brigar, sofrer e carregar aquela estiva toda, ida e volta.

Em 1929, disputou com o Conjunto Carnavalesco Oswaldo Cruz e Mangueira, o “Campeonato de Samba” organizado por Zé Espinguela, babalorixá de Candomblé, terminando em terceiro lugar após descumprir o regulamento que não permitia instrumentos de sopro.

Não participou do primeiro concurso das Escolas de Samba do Rio, organizado em 1932 pelo Jornal Mundo Sportivo, pois preferiu passar para a categoria de rancho carnavalesco. No entanto, foi uma referência para o surgimento das outras Escolas, inclusive no próprio morro. Surgiram agremiações no bairro do Estácio como "Cada Ano Sae Melhor", "Vê Se Pode" que se transformou na "Recreio de São Carlos", "Paraíso das Morenas", entre outras.

Nas cores verde e rosa, fundada em 1928, na localidade conhecida como "Beco da Padeira" (atual "Capela"), no Morro de São Carlos, surgiu a A Cada Ano Sae Melhor. Ainda no ano de 1932, o bairro do Estácio de Sá foi ali representado pela A Cada Ano Sae Melhor (também chamada de Segunda Linha do Estácio). A agremiação terminou empatada em segundo lugar com a Vai Como Pode, que mais tarde se tornaria a Portela, no concurso das Escolas de Samba do Rio.

Em 1929, surgia a Vê Se Pode, nas cores verde e branco, fundada na localidade “Atrás do Zinco”, do morro de São Carlos. Posteriormente, por imposição policial e política, foi obrigada a trocar de nome e tornou-se “Recreio De São Carlos”.

A caçulinha do morro de São Carlos surgiu em 1947, no “Larguinho”, com as cores azul e rosa.

Em 27 de fevereiro de 1955 surgiu a "Unidos de São Carlos", criada a partir da fusão das escolas "Cada Ano Sai Melhor", "Paraíso das Morenas" e "Recreio de São Carlos".

Houve um tempo de disputas acirradas entre a Cada Ano Sai Melhor e a Recreio de São Carlos. Porém com o tempo os casamentos e outros relacionamentos de parentesco e afetivos diminuíram as diferenças e um grupo de amigos liderados José Coelho, Manoel de Almeida (Bacurau), Aurélio, Galdêncio, Miro, Antônio José de Brito, João Pintor, Maurício, dentre outros, resolveu propor a fusão das três escolas de samba.

Até a fusão que culminou com o nascimento da Unidos de São Carlos existiam as antigas as agremiações. Após muita discussão decidiu-se por nome e cores a Unidos de São Carlos nas cores azul e branco e com sede na rua Major Freitas.

Não foi nada tranquila até se chegar às cores e o nome. Grupos contrários principalmente da extinta Cada Ano tentavam boicotar a reunião da fusão que ocorria na subida da rua Major Freitas.

Tudo acabou com a sugestão de Manuel Bacurau e José Coelho indicando por aclamação Waldomiro Ribeiro, o Miro, e de que a sede da Unidos de São Carlos seria na rua Major Freitas, da extinta Cada Ano Sai Melhor. E assim nasceu a Unidos de São Carlos em um domingo, dia 27 de fevereiro de 1955.

Em março de 1983 com a intenção de retratar a nova realidade da agremiação, que passou a contar com integrantes de toda a região do entorno do bairro do Estácio. Apoiado por Judson Magacho e Climério Veloso, o então presidente Antônio Gentil acreditava que o melhor para a agremiação seria a troca de nome para “G.R.E.S. Estácio de Sá”. Após muito debate, a reunião do Conselho decidiu por 21 votos a favor, 3 contra e 2 abstenções, que o G.R.E.S. Unidos de São Carlos passaria a se chamar G.R.E.S. Estácio de Sá.

*HOMENAGENS*

Devemos lembrar os vários componentes das extintas agremiações. Alguns componentes estarão listados em mais de uma escola por motivos de brigas momentâneas. Casamentos e “amigações” ou outras formas de relacionamentos de cunho religioso na Umbanda e no Candomblé.

CADA ANO SAI MELHOR:

Dona Eutanázia (uma das mulheres do Nino, o Saturnino da Mangueira e grande batuqueiro da Praça Onze). Miquimba, Gunã, Dádá e dona Hermengarda, Áurea, Pequenino, Galdino, Jorge Pequeno, Nelson Sapo e Eponina, Nelson China e Durvalina, Domingos, Zacaria, Joel Xangô, Vadinho, Bicho Novo e Odetinha, Dami, Aristóteles, Nô e Jorge Cornélio, Waldomiro Ribeiro, o Miro, e Alice, dona Yolanda e seu Joca e dona Alaíde, Titico, Jorge Canário, João Luis dos Santos (Joãozinho Compositor), Repolho (José Garcia Gomes) e Hilda.

VÊ SE PODE – RECREIO DE SÃO CARLOS:

Manoel de Almeida , o Bacurau, e dona Praxedes de Almeida, Brinco (diretor de harmonia), Nonô (diretor de bateria), Simplício, os irmãos Francisco (Chicão) e Humberto de Assis, Jurandir (tocador de prato de cozinha), Mira e dona Joana, Bucy Moreira (neto da Tia Ciata), Chico e dona Santa, Belzia Paranhos de Menezes (que saia como baliza ou mestre sala desde o ano de 1930), Tertuliano da Silva  Menezes (Tertúlia), Celeste e Ruth, Felipe e dona Nica, dona Santa e Porfírio, Walter Anão e Tinque, Cacilda e Nonô, Jaburu (o Otaviano), Dona Maria, Dulce, Altair  e Arilda, Leopoldina e Ortivo Guedes (o Pequenino), dona Maria e seo Egydio Ramos,  Alfredinho, Haroldo Alves Bittencourt, o Milu, Orlando Macuco, Alcides,  Robertinho, Bimba, Roxinho, Nonô, João Luis dos Santos (Joãozinho), Esquisito, Borboleta, seo Baiano, Jovino Hilário da Costa, José Coelho, José do Espírito Santo( Pafúncio), Zizinha e Sinhá.

PARAÍSO DAS MORENAS:

Aurélio, dona Yolanda e Paquito, Almofada, Milta, Linda, Wilson da Bandola, Zefa, João Pintor, Lustroso, Nozinho, Cavuca (PRIMEIRO CIDADÃO SAMBA) e Fiota, Jorge Canário, Jorge Cabo e Manoel Trovão, a Muda, irmão do Aurélio e Bola Sete

Agradecimentos:

Através dos depoimentos de baluartes da nossa agremiação, foi possível preparar esse material tão rico e detalhado sobre a história de nossa agremiação. Agradecemos a colaboração de Eunice Soares, Dona Chimbinha, Adilson de Almeida e Almir Sapo.

Departamento Cultural do G.R.E.S. Estácio de Sá

Referências:

CABRAL, Sérgio. As Escolas de Samba: o quê, quem, como, quando e por quê. Rio de Janeiro: Fontana, 1974.

NOGUEIRA, Carlos. Samba, cuíca e São Carlos. Rio de Janeiro: Oito e meio, 2014.

Depoimento de Ismael Silva ao Museu da Imagem e do Som (MIS), 1969.

BRUNO, Leonardo. “Série especial capítulo 4: a São Carlos vira Estácio de Sá”. Jornal Extra, Rio de Janeiro, publicado em 04/02/2015. Acesso em: 29/08/2018.
Disponível em: https://extra.globo.com/noticias/carnaval/carnaval-historico/serie-especial-capitulo-4-sao-carlos-vira-estacio-de-sa-15236517.html

FRANCESCHI, Humberto. Samba de Sambar do Estácio: 1928 a 1931. Rio de Janeiro: Instituto Moreira Salles, 2010.

SIMAS, Luiz Antônio; LOPES, NEI. Dicionário da História Social do Samba. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017.

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