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  "Deixa Falar, deixa pra lá / A primeira escola nasceu e está / no velho Estácio de Sá"  
   
     
 
Em sua bandeira, a Estácio de Sá carrega o nome do fundador da cidade do Rio de Janeiro, mas sua história se confunde, sobretudo, com a formação das escolas de samba. A explicação é simples: "Vem de lá, vem de lá", da região da Praça Onze, a origem da vermelha-e-branca. É a Deixa Falar, considerada por pesquisadores como a primeira de todas.

É no Estácio, pertinho da Praça Onze, reduto do samba, da batucada e do candomblé, palco de personagens clássicos do mundo do samba como Tia Ciata, Donga e Sinhô, que nasceu a Deixa Falar, em 12 de agosto de 1928. Um dos seus fundadores é Ismael Silva, sambista de Niterói que se mudou ainda criança para a região do Rio Comprido na década de 20. Inicialmente, a Deixa Falar era bloco, mas logo se tornou escola de samba. A alcunha foi sugerida pelo próprio Ismael Silva, em analogia a uma escola normal que funcionava no bairro. Para ele, a Deixa Falar funcionava como um celeiro de "professores do samba".
 
 
Como escola, a Deixa Falar desfilou pouco - apenas nos carnavais de 1929, 1930 e 1931. Nem chegou a participar do primeiro desfile oficial, organizado pelo jornal "Mundo Sportivo", em 1932. No entanto, foi referência para o surgimento de outras agremiações no Rio de Janeiro, inclusive no próprio morro de São Carlos, base da atual Estácio de Sá. Lá, foram fundadas outras escolas que faziam sua folia na disputa pelo título, como "Cada Ano Sae Melhor", "Vê se pode" (posteriormente "Recreio de São Carlos") e o "Paraíso das Morenas".
 
 
 
 
Os laços, quase consangüíneos, falaram mais forte e, em 1955, essas escolas se uniram para formar a Unidos de São Carlos. Desde então, o efeito ioiô, aquele sobe-e-desce de grupos, pontuou a história da São Carlos, mas nem por isso deixou de fazer bonito no desfile principal. Dois exemplos são notórios e foram reeditados recentemente: "A festa do Círio de Nazaré", em 1975, e "Arte Negra na Legendária Bahia", de 1976, que revelou o talento do compositor e intérprete Dominguinhos do Estácio.
 
 
 
 
 
Em 1983, mais uma mudança: a Unidos de São Carlos vira Estácio de Sá. Suas cores, antes azul-e-branca, voltam a referenciar a herança direta da Deixa Falar, e o "pavilhão do amor" balança novamente vermelho e branco. A troca no nome era para adequar a escola à sua comunidade, que já contava, na época, com integrantes e simpatizantes que iam além das fronteiras do Morro de São Carlos.
 
 
 
 
 
Em sua nova fase, a Estácio, já no desfile principal, tomou características de uma escola leve, descontraída e irreverente, mas nunca emplacando uma posição de grande destaque - no máximo, o quarto lugar com a primeira versão de "O tititi do sapoti". Mas, em 1992, veio a surpresa que ninguém esperava. Quando todos davam como certo o título para a bicampeã Mocidade, o Leão corre por fora e abocanha o título, com o enredo "Paulicéia Desvairada, 70 anos de Modernismo no Brasil".
 
 
 
 
 
Este é o único campeonato da Estácio de Sá no Grupo Especial, que, em 1997, sofreu um baque e retornou ao Grupo de Acesso A. Chegou a ir para a terceira divisão do samba, o Acesso B, em 2005. Sua retomada ascendente, que culmina neste retorno à elite do samba, reflete o espírito do torcedor estaciano, cantado em seu samba-exaltação, "Pavilhão do amor", composto por Jair Guedes, Toninho Gentil, Soneca, Jorge Magalhães e Marcelo Luiz:
 
     
 
A saudade apertou
E eu voltei, e eu voltei
Pra ficar ao seu lado
Com um nó na garganta
Meu peito se zanga
O sentido calado

Mas corre nas veias
Esse sangue vermelho
Que me faz explodir
Seu branco é o encanto
Eu visto esse manto, e vou por aí
A Estácio é isso aí

É, a esperança continua
Amor, amor, amor
Sou teu poeta pelas ruas
O meu coração se abriu em flor
Tu és o pavilhão do amor
 
     
  ESTÁCIO - O VERDADEIRO BERÇO DO SAMBA  
   
     
 
O bairro do Estácio de Sá é indiscutivelmente o berço do samba carioca. Centro da grande "malandragem" do príncipio do século, vizinha da Praça Onze e do Mangue (Zona), foi passagem de todos os grandes sambistas que, na época, surgiram no Rio - da Mangueira à Portela, passando pelos compositores e cantores do rádio que, em pleno desenrolar da "década de ouro do samba", lá iam garimpar a base de seu repertório, sambas maravilhosamente eternos. Francisco Alves e Mário Reis são exemplos.

 
 
O início resume-se nas destacadas figuras de Mano Edgar, Bucy Moreira, Alcebíades Barcelos (Bide), e seu irmão Rubens, Armando Marçal, Ismael Silva, Baiaco, Brancura e tinha como frequentador Juvenal Lopes ("Nonel do Estácio ou "Juju das Candongas"), que mais tarde se mandou para a Mangueira, onde chegou à presidência e Heitor dos Prazeres.
 
 
 
 
Foi ali que surgiu a "Deixa Falar", considerada a Primeira Escola de Samba. Criada no dia 12 de agosto de 1928, no nº 27 da Rua Maia de Lacerda, na casa de um sargento da polícia militar, pai do saudoso Bijú, senhor Chystalino. Como nas imediações funcionava uma Escola Normal, que formava professores para a rede escolar, Ismael Silva resolveu batizar seu grupo de Escola de Samba, já que formaria professores de samba. A Deixa Falar durou pouco tempo, desfilando na Praça Onze nos carnavais de 1929, 1930 e 1931, e nem chegou a participar do primeiro concurso das Escolas de Samba do Rio, organizado em 1932 pelo Jornal Mundo Sportivo pois preferiu passar para a categoria de rancho carnavalesco. No entanto, foi uma referência para o surgimento das outras Escolas.
 
 
 
 
 
A maioria não se misturava muito". Quem saía dentro da corda mesmo eram o baliza Gaguinho, a porta-estandarte Caboquinha, o Chico Macaú que encourava barricas de vinho para a bateria reforçada do Bloco da Carestia, em cuja casa havia Umbanda, Congo e Caxambu e a gente que vinha dos trabalhadores do cais, operários, artesãos, gráficos e ambulantes aos quais se juntavam malandros, cafetões e boêmios em geral. Entre as cabrochas: Anastácia do Nino, Celeste, Rosália, Odetinha, Agripina, Julieta, senhoras de respeito que faziam o coro de canto ou a fila de baianas. Entre os malandros batuqueiros, Bujú Velho, Gaguinho, Paulo Grande, Dadá Mulato, Alemãozinho, Neca Bonito e o maior malandro de todos os tempos do Estácio, Nino da Anastácia. Tinha ainda os mais esquecidos, os importantíssimos homens da corda como Jorge Burundú (da "Cada Ano Sai Melhor"), João Pimentão (da "Paraíso das Morenas"), e o Milú (da "Recreio de São Carlos"), gente que fazia questão de se expor, brigar, sofrer e carregar aquela estiva toda, ida e volta.
 
 
 
 
 
Após a "Deixa Falar" surgiram várias agremiações no bairro do Estácio como "Cada Ano Sae Melhor", "Sem Você Eu Vivo", "Vê Se Pode" que se transformou na "Recreio de São Carlos", "Paraíso do Grotão" e "Boi Azul". Em 27 de fevereiro de 1955 surgiu a "Unidos de São Carlos", criada a partir da fusão das escolas "Cada Ano Sae Melhor", "Paraíso das Morenas" e "Recreio de São Carlos". Em 1983, a "Unidos de São Carlos" passou a se chamar Estácio de Sá.
 
 
 
 
 
A primeira Escola de Samba do país nasceu em 1928, criada por uma turma de bambas como Ismael Silva, Bide, Marçal, Baiaco, Brancura e Mano Edgar. Eles costumavam se reunir na subida do Morro de São Carlos, no Estácio - um dos pontos quentes de um Rio de Janeiro que vivia mil transformações e transgressões. Acabaram inventando a Deixa Falar.
 
     
 
Os botequins na esquina da Rua Maia Lacerda, perto da Praça Onze e da Zona do Mangue, atraíam malandros de todas as partes do Rio, alguns deles excelentes sambistas. Vinha gente de Benfica, Madureira, Providência e Gamboa. Ali era cenário para o meretrício e para as rodas de carteado. Essa vida noturna intensa garantiu ao Estácio a aura de Berço do Samba carioca - aquele que conhecemos até hoje, dolente, pausado e marcado por instrumentos de percussão.
 
     
 
Não é à toa que a malandragem sempre esteve associada ao Rio de Janeiro, berço do samba. Tampouco é fruto do acaso o fato de a primeira escola de samba carioca, a "Deixa Falar", ter nascido no bairro do Estácio, tradicional reduto da massa de desocupados e trabalhadores informais, dedicados a jogatina e exploração de mulheres naquele alvorecer dos anos 30. Eram os chamados "bambas" os líderes destas hordas de malandros, que se reuniam nos botecos em culto à boemia e tudo mais que estivesse associado.

 
 
Aí a malandragem se criou. E no Estácio criou-se o grande Ismael Silva, grande "bamba" e um dos fundadores da agremiação carnavalesca supracitada. "O samba moderno nasceu no Estácio. O bum, bum, paticumbum, prugurundum é Ismael Silva. As primeiras escolas de samba se apropriaram da estrutura dos cortejos e apressaram a linha melódica para andar, pular e dançar", explica o pesquisador Carlos Nogueira, autor da tese No São Carlos era assim .... Para Nogueira, o samba "tem relação direta com as favelas por causa dos negros. A maioria dos ex-escravos subiu os morros. E onde passou o negro tem uma semente do samba", afirma.
 
     
     
  O Estácio e suas principais agremiações carnavalescas:  
   
     
 
Deixa Falar: A primeira Escola de Samba foi fundada em 12 de agosto de 1928, com as cores vermelho e branco. Ismael Silva, Alcebíades Barcelos (Bide), Armando Marçal, Nilton Bastos, Rubem Barcelos (Mano Rubem), Edgar Marcelino dos Passos (Mano Edgar), Silvio Fernandes (Brancura), Oswaldo Vasques (Baiaco) e Aurélio Gomes foram seus principais integrantes. Desfilou entre 1929 e 1931.
 
 
Cada Ano Sae Melhor: Tinha como cores o verde e rosa. Como a Deixa Falar, também foi fundada em 1928. Nascida na localidade conhecida como "Beco da Padeira" (atual "Capela"), no Morro de São Carlos.
 
 
 
 
Vê se Pode: Teve seu nome mudado posteriormente para "Recreio de São Carlos". com as cores verde e branco, foi fundada em 1929, no local conhecido como "Atrás do Zinco", também na comunidade do São Carlos.
 
 
 
 
 
Paraíso das Morenas: A caçulinha, nascida no "Larguinho" em 1947, com as cores azul e rosa.
 
 
 
 
 
G.R.E.S. Unidos de São Carlos: Fundada em 27 de fevereiro de 1955, como resultado da fusão das três últimas agremiações citadas acima e com as cores azul e branco. Mudou as cores para vermelho e branco e o nome para:
 
     
 
G.R.E.S. Estácio de Sá: Adotado em 1983 com a intenção de retratar a nova realidade da Escola, que passou a contar com integrantes de toda a região do entorno do Estácio. Campeã do carnaval de 1992 comemorou, em 2005, o cinquentenário da fusão das três escolas.

 
  Histórico Resumido da Agremiação:  
   
     
 
O bairro carioca do Estácio de Sá, chamado anteriormente de “Mata-Porcos”, revelou ao mundo aquela que é considerada a primeira Escola de Samba, a “Deixa Falar”, fundada em 12 de agosto de 1928, com as cores vermelho e branco, em homenagem ao América Futebol Clube e ao Bloco “A União Faz a Força”. Desfilou e apresentou-se em diversos bairros da cidade entre 1929 e 1931. Entre os fundadores destacam-se Ismael Silva, Alcebíades Barcelos (Bide), Armando Marçal, Nilton Bastos, Edgard Marcelino dos Passos (Mano Edgar), Sílvio Fernandes (Brancura), Osvaldo Vasques (Baiaco), Rubem Barcelos (Mano Rubem) e Juvenal Lopes.
 
 
Na comunidade do Morro de São Carlos, existiam outras Agremiações, a exemplo de “Cada Ano Sae Melhor” (1928), “Vê se Pode” (1929) (nome mudado posteriormente para “Recreio de São Carlos” por imposição do Chefe de Polícia) e o “Paraíso das Morenas” (1947). Estas Agremiações disputavam regularmente os desfiles das Escolas de Samba com Mangueira, Portela, Azul e Branco do Salgueiro, Depois eu Digo, Unidos da Tijuca, Filhos do Deserto, entre outras.
 
 
 
 
Houve um tempo de disputas acirradas entre o “Cada Ano Sae Melhor” e o “Recreio de São Carlos”, porém, com o passar dos anos, casamentos e outros relacionamentos de parentesco e afetivos diminuíram as diferenças existentes, resultando na idéia da fusão das escolas de samba surgidas no Estácio, inclusive o “Paraíso das Morenas”. Desta maneira, em 27 de fevereiro de 1955 é fundado o Grêmio Recreativo Escola de Samba Unidos de São Carlos, nas cores azul e branco. Em 1965, retorna o vermelho e branco, por influência de Judson Magaxe, empresário das Casas da Banha e de um grupo que desejava as cores originais da primeira Escola de Samba, a Deixa Falar.
 
 
 
 
 
O atual nome - Grêmio Recreativo Escola de Samba Estácio de Sá - foi adotado em 1983, principalmente por se acreditar que seria uma maneira de retratar melhor a realidade da Escola, que contava, já à época, com integrantes e simpatizantes que iam além das fronteiras do Morro de São Carlos. A partir daí, a agremiação foi gradativamente conquistando seu espaço no cenário principal do carnaval carioca, tendo alcançado de forma brilhante o título de escola campeã do carnaval de 1992. Os componentes da Agremiação são, em sua maioria, das comunidades que compõem o Morro de São Carlos, Estácio, Cidade Nova, Catumbi, Rio Comprido, Tijuca, Santo Cristo, Praça da Bandeira e Centro.
 
  Às vezes acontece...
Por Evaldo Rui (1913-1954)
 
   
     
 
Talvez ainda exista e hoje tenha outro nome. Mas, naquela época, eu bem me lembro, era Café do Compadre mesmo. Duas portas davam para a velha Rua do Estácio. Do lado da Rua Pereira Franco, ficavam as outras três. As mesas eram de mármore, daquelas que hoje já não existem. Ao fundo, sobre um palanque, uma enorme vitrola "ortofônica" e, colocada acima da vitrola, uma imagem de São Jorge.

Era assim o Café do Compadre, naquele tempo em que a minha presença no recinto significava nada. Mas eu gostava de me postar diante de duas portas, quase todas as tardes, porque ali se reuniam meus ídolos - e eram tantos e tão imensos! Parece que ainda estão, sentados naquela mesa que ficava bem defronte à Rua do Estácio, Ismael Silva, no seu irrepreensível terno azul-marinho, com a sua camisa de seda lavável imaculadamente branca e aquela gravata de tricô preto. Ao seu lado, está sentado Nílton Bastos, uma das maiores figuras do Café.
 
     
 
Ele usa chapéu de feltro marrom, combinando com o seu terno também marrom e sapatos da mesma cor. O que estarão dizendo neste justo momento? Impossível reproduzir, porque, como disse acima, a minha presença significava nada. E, depois, quem sou eu para aproximar-me assim, sem mais nem menos, dos reis do samba? Limitava-me à contemplação muda e muito satisfeito ficava cada vez que um olhar deles pousava sobre a minha insignificante figura. Mesmo sem saber o que conversavam, eu podia adivinhar. Havia de ser sobre música e, essencialmente, samba. Não era possível que dois grandes daqueles conversassem sobre coisas chatas, como, por exemplo, a sucessão presidencial, a reforma do ministério, o custo de vida e outros assuntos mais bestas ainda. Eles deviam estar falando de samba! Daquele sambe que o Brasil inteiro cantava. Daquele samba que, assim que ficava pronto, escorria pela garganta de Francisco Alves, pela garganta de Mário Reis. Daquele samba, como igual já ninguém sabe fazer, nem eu, que procurei aprender com eles. Nem Bide, que acabou por perder a fórmula.
 
 
 
 
Talvez, naquele instante, eles estivessem dando os últimos retoques no Se Você Jurar. Talvez estivessem arranjando uma rima melhor para a palavra saudade. Talvez estivessem estudando um plano para atacar de frente o último sucesso de Cartola, que era o rei da Mangueira. E eu ali, firme, procurando disfarçar a minha curiosidade, aguardando o momento em que os dedos ágeis e cheios de ritmo dos dois mestres começassem a tamborilar sobre o mármore da mesa. Às vezes, a espera era inútil. Na maior parte das vezes, eu era recompensado, e ali ficava esquecido da tarde, do estômago, das coisas, ouvindo melodias que mais tarde tentei compor iguais, mas, qual o quê! Cadê talento? Cadê bossa? Cadê aquele toque de genialidade tão necessário? Mesmo assim, aprendi muita coisa nas portas do Café do Compadre. Aprendi, por exemplo, qual a diferença entre o bom, o puro samba, e o mal, o falso samba. Conheci Ismael, conheci Nílton, Bide, Rubem, o inigualável Edgar, Aurélio, Brancura, Baiaco, e tantos outros que sem querer torceram o meu destino, o destino de um rapaz que fatalmente terminaria chefe de seção da Light e que hoje não passa de um sambista, um sambista que nunca conseguiu um lugar nas mesas do Café do Compadre.
 
     
 
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