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Sinopse:
Sinopse original do carnaval de 1976
Carnaval original de Aelson Nova Trindade, Carlos
Martins e Júlio
Matos, que será reeditado em 2005 por Sylvio Cunha
Quando da chegada dos tumbeiros carregados de
africanos vindos por imposição
dos poderosos para a nossa terra, não estávamos importando
tão somente o material humano, mas, acima de tudo, toda a cultura
inerente a essa gente.
Introdução:
Uma homenagem à bravura, à coragem, à inteligência, à alegria
e à arte do negro africano, é o que a Escola de Samba Unidos
de São Carlos presta com este enredo - Arte Negra na legendária
Bahia - fruto de um estudo vasto e complexo.
Tanto quanto possível, não nos fixaremos neste ou naquele
episódio. Queremos mostrar o todo, em quatro partes, assim divididas: "As
Nações Africanas", "A Legendária Bahia", "A
Arte Negra" e "Os Cultos e Tradições".
Nosso objetivo maior é exaltar tudo de bom que nos foi legado
pelas nações africanas. Elas, que até então
foram mostradas pelo lado mais sofrido, o da escravidão, O negro
no chicote, no cativeiro, nos moinhos, nos porões.
A chegada triunfante nos tumbeiros, sonhada por eles, todas as suas tribos
ricamente vestidas, farão parte do primeiro ato.
A Bahia, propriamente dita, será a segunda parte, em um quadro
global do mercantilismo desenvolvido em alta escala nos mercados baianos.
A Arte Negra, ocupará a terceira parte, onde será mostrado
todo o trabalho da equipe encarregada do desenvolvimento deste tema e
a supremacia dos sambistas do Estácio: arte na dança, nas
fantasias de alas e destaques; nas alegorias; nas esculturas e na música.
Finalmente, a quarta parte, numa homenagem justa à crença
que o negro implantou e a Bahia difundiu: Cultos e Tradições,
mostrando os Orixás e em realce, duas grandes festas: Yemanjá e
Senhor do Bonfim.
Assim, a Unidos de São Carlos apresenta o negro: sua face alegre
e descontraída, sua potencialidade e sua arte.
Sinopse do Enredo:
"Essa gente de cor chegou ao Brasil nos tempos da colonização
e trouxe nos braços a força que realizou um gigantesco
trabalho, aflorando nossas grandes riquezas agrícolas e minerais.
E, no espírito, o poder de plantar em nossas terras a confiança
em sua cultura milenar e mágica..."
Primeira Parte - As Nações Africanas
Dos Séculos XVI a XVIII, da Guiné, de Angola, da Costa
da Mina chegou à Bahia o maior número de escravos importados
da África, de nações diversas: Haussás, Iorubás,
Iolofás, Islamitas, Mandingas, Congos, Bantos, Achantis, Gegês,
Tapas, Fulah's, Grúcis, Caçanjis, Benguelas, Muxicongos
e muitas outras que desapareceram sem deixar traços.
Após viagens sofridas, mal acomodados, famintos, doentes, castigados,
eram amontoados nos barcos (tumbeiros) de onde iam para a venda, misturados
em suas originalidades e diferenças. Passavam a levar como nome
de família aquela do seu país: Maria Nagô, João
Congo, Francisco Ibo, Maria Ioruba, etc.
Abram alas meus tumbeiros
Aos sete portais da Bahia
É a Arte Negra que desfila
Com seus encantos e magia
Durante três séculos, a herança africana manifestou-se
largamente ao lado da herança portuguesa. Esta última,
legou sua sociedade como sua civilização, enquanto a escravidão
africana destruiu a sociedade daqueles grupos importados nos tumbeiros,
permitindo que o negro, despojado de todo o seu "modus vivendi",
trouxesse consigo seus valores culturais.
O negro debateu-se, tendo que se adaptar a uma sociedade que lhe foi
imposta e da qual usufruiria apenas uma parte restrita. Não foi
permitida a subsistência da estrutura social negra na nossa terra,
indo sua gente ocupar a camada mais baixa de uma nova estratificação,
onde o branco era o ápice e o mulato e o caboclo ficavam na faixa
intermediária.
A comunidade africana não teve meios de renascer de imediato no
Brasil, entretanto, o próprio negro era a expressão autêntica
do seu meio social. Com eles vieram seus costumes, crenças, danças
e todo um manancial de cultura que, aos poucos, foram se incorporando à nossa
formação.
No princípio, entoavam cantos de lamentos evocando a terra distante,
como se a tivessem perdido para sempre. À medida que o tempo foi
passando o negro foi ganhando amor à sua nova terra. E foi participando,
dando tudo de si e adquirindo conquistas e alegrias. Criaram irmandades
e associações, organizaram folguedos, exteriorizaram sua
arte e conseguiram o maior sonho, que era o de todos os brasileiros,
a abolição da escravatura.
Daí por diante, sua contribuição se fez sentir com
mais ênfase em todos os setores da vida Nacional. E foi decisiva
para a formação de nossa raça que, sem preconceitos,
oferece ao mundo, o maior espetáculo popular da terra que é o
nosso Carnaval.
PARTE II - Legendária Bahia
"Bahia - terra das praias rendilhadas de beleza. Das 365 igrejas
monumentais. Dos milhares de turistas que procuram conhecer o berço
da nossa cultura, a primeira capital do Brasil. Bahia, terra de riquezas:
petróleo, cacau, fumo e coco. Bahia de todos os santos e de todos
os orixás. Bahia, onde não é preciso fechar os olhos
para sonhar, o mais lindo sonho e a realidade que a Boa-Terra oferece
aos olhos de quem ama a beleza, o progresso e o Brasil. Bahia - legendária...
Bahia".
A presença do negro africano ainda hoje é marcante e a
ela é atribuída à grandeza da terra que tantos vultos
deixou na história, como, Rui Barbosa, Castro Alves e outros,
autores de obras culturais de exaltação ao valor negro,
na arte, na música, na dança, na religião, na culinária,
no artesanato, em suma, na formação cultural do Brasil.
Sem fixar seus pontos turísticos, é a Bahia famosa, de
ponta a ponta, quer pelo sertão ou pelas plagas banhadas pelo
São Francisco, o importante é dizer, que "em cada
espaço baiano existe um palmo africano".
Bahia, das velhas baianas vendedoras de quitutes, do abará e do
acarajé; das capoeiras, do samba de roda, do candomblé.
Bahia dos mercados famosos, como o Sete Portais, Mercado Modelo, São
Joaquim, Água de Menino, onde fica o cais dos saveiros que transportam
verduras, peixes e mariscos. Dos vendedores de frutas e de animais. É o
mundo das baianas com seus manauês e seus beijus, seus torsos de
seda e seus panos nas costas.
Da sua terra trouxeram a saudade
A capoeira, o berimbau
Os enfeites coloridos
O pilão e a colher de pau
Os batuques estão em todos os lugares e em todas as horas. Nas
praias, nos mercados, nas festas, nas ruas. E assim, como os grandes
eventos são anualmente comemorados, os quadros de origens africanas
são relembrados dentro do rigoroso ritual, como por exemplo, a
capoeira.
A capoeira da Angola é um folguedo inventado pelos negros que é realizada
acompanhada de uma pequena orquestra composta de instrumentos como o
berimbau, ganzá, agogô e pandeiro. Mestre Pastinha possuía
a mais famosa delas, a Academia de Capoeira de Angola.
Um outro quadro conservado - o da pesca do xaréu. O pescador da
Bahia se basta e ao seu pequeno mundo colorido. O famoso quadro da puxada
da rede, verdadeiro ritual, obedece a princípios rigorosos e é o
ponto culminante de um trabalho de meses, durante os quais dezenas de
famílias teceram a enorme rede do xaréu. Mas outras razões
existem para que a Bahia ocupe esse lugar de relevo na história
Nacional. A tradição de tudo que ali criaram e respeitada
pelos seus filhos é o motivo maior de tudo.
"
As baianas com seus vestidos brancos e rodados, braceletes, torso branco
na cabeça, brincos enormes são vistas em todas as esquinas,
dando continuidade àquele trabalho iniciado na luta: abolição.
Hoje, trabalhando de sol a sol pela independência cultural, social
e econômico-financeira. Ontem, pela liberdade".
Parte III - Arte Negra
"Na escultura, porém, é que com mais segurança
e aprumo se revela a capacidade artística dos negros. O seu cultivo
apreço, entre os escravos que vieram colonizar o Brasil, tanto
que comprovam nas presunções indutivas como no testemunho
de fatos e documentos. Nas levas de escravos que, por três longos
séculos, tráfico negreiro, de contínuo, vomitou
nas plagas brasileiras, vinham, de fato, inúmeros representantes
dos povos africanos negros avançados em cultura e civilização".
Os africanos desenvolveram em larga escala a fabricação
de vasos de barro, cestas de palha, máscaras, escultura em madeira,
objetos decorativos em ferro, bronze e metais. Os negros da Guiné destacaram-se
na agricultura. Os Bantos inclinavam-se mais para os serviços
domésticos, e para os ofícios de ferreiros, sapateiros
e joalheiros.
Das culturas negras difundidas na Bahia, a Iorubá foi a mais adiantada:
os iorubás influenciaram na linguagem geral dos negros - o nagô e
deles surgiram os cultos, a fé mística - em ambientes fechados.
Foi através dos iorubás que a Igreja permitiu aos negros
formarem suas Irmandades e Associações religiosas, tão
importantes pela demonstração de fé em situações
diversas. Foi grande o legado da cultura iorubá: o Candomblé.
Quanto aos Bantos, introduziram a adoração aos ídolos
de madeira, sempre representando o Rei Congo e a Rainha Ginga. Todas
as festas de rua, sejam o culto ao boi, o samba, a capoeira e o Imperador
do Divino, realizadas aos domingos em épocas distintas, vêm
da cultura gegê. Legaram-nos as pencas de balangandãs, os
instrumentos para o trabalho em ferro, a formação dos quilombos
e a moradia nos mocambos.
A arte sacra foi marcada desde o Século XVIII: culminou com o
estilo barroco nos trabalhos esculpidos nas igrejas da Bahia, a talha
e os próprios santos.
Falavam a língua nagô
Rezavam forte com fé
Talhando arte deixaram
Imagens do candomblé
Pro mau olhado figa de Guiné
Tivemos maravilhosa influência negra nas letras e ciências.
Todos os seus cantos se transportaram para a Bahia numa literatura oral,
como o "Akpalô", contos populares da Nigéria.
O símbolo maior foi o Pai João.
Na indumentária trouxeram os panos de cores berrantes, saias rodadas,
os xales, braceletes, argolas e balangandãs. Trajes esses semelhantes
aos dos Haussás, de origem maometana que na Bahia se chamavam
malês. Ainda na cultura material temos os pratos típicos,
liderados pelo uso do inhame, do azeite-de-dendê.
Podemos dizer que os povos que forneceram escravos para a Bahia tinham
a dança como instituição: danças religiosas,
fúnebres, autos de caças, de guerra e de amor. Do quizomba
- dança nupcial de Angola - traduziu-se o samba, cujo termo é proveniente
de sembe ou umbigada usada no bamboleio. Na Bahia os negros implantaram
o samba, sorongo, batuque, candomblé, batuquegê e outras
danças, usando vários instrumentos como o atabaque, tambor,
berimbau, ganzá, agogô e outros de percussão.
O século do tráfico, período de ilegalidade, pois
já se decretara a proibição inglesa, foi o Século
XIX, quando os negros importados entravam clandestinamente no Brasil,
quase não atingindo o território baiano, a não ser
em estreita minoria.
Politicamente o negro participou de movimentos revolucionários,
como na defesa e expulsão dos holandeses - Henrique Dias; na Sabinada,
em 1837 -o mulato "Sabino"; e na campanha abolicionista, o
baiano escravo, Luiz Gama.
Iorubá, bantos gegê
No terreiro dançavam
Samba e batuquegê
Parte IV - Cultos e tradições
"A Bahia da magia, dos feitiços e da fé. Bahia que
tem tanta igreja e tem tanto candomblé".
Perseguido pelo branco, o negro na Bahia escondeu as suas crenças
nos terreiros das macumbas e dos candomblés. O folclore foi a
válvula de escape pela qual ele se comunicou com a civilização
branca, impregnando-a de maneira definitiva. As suas primitivas festas
cíclicas - de religião, de amor, de guerra, de caça
e de pesca - entremostraram-se assim disfarçadas e irreconhecíveis.
O negro aproveitou as instituições e por elas canalizou
os seus conhecimentos, o seu inconsciente ancestral: nos autos europeus
e ameríndios do ciclo das janeiras, nas festas populares, na música
e na dança.
Nos seus terreiros de candomblés eles festejavam seus deuses em
festas sagradas de grande beleza, no culto aos Orixás, entre estes
os mais conhecidos: OGUM (divindade dos ferreiros e dos guerreiros).
OXOSSE (divindade dos caçadores). OXUMARÉ (deusa do Arco-Íris).
XANGÔ (deus do trovão). IANSÃ (divindade do vento
e das tempestades). OXUM (divindade das águas doces). ABALUAIÊ chamado
também de OMULU (divindade da varíola e das doenças
contagiosas). ERÊS (divindade das crianças). NANÃ (deusa
da chuva). OXALÁ (Rei de todos os Orixás). YEMANJÁ (divindade
das águas salgadas, mãe de todos os Orixás).
A participação dos negros africanos na implantação
das festas baianas foi decisiva. Eles trouxeram os ritmos, os cantos
e introduziram os diferentes festejos que hoje, orgulhosamente, são
conservados na Bahia. A festa do Bonfim, em janeiro, e a de Yemanjá,
em fevereiro, são dois grandes eventos tradicionais, onde são
consideradas festas populares muitas outras como a da Lapinha, da Ribeira
(Onde começa o Carnaval), Micareta, Feira dos Caxixis, Festa de
Omulu, Bom Jesus dos Navegantes, Conceição da Praia. Vale
registrar a data da consagração nacional da Independência
da Bahia - o 2 de julho.
De todas essas festas, ressaltamos a Festa de Yemanjá, realizada
anualmente no dia dois de fevereiro, com danças, toques e cânticos,
com a participação de milhares de fiéis que levam
suas oferendas - flores, espelhos, perfumes, fitas e velas à Rainha
do Mar.
A Festa do Bonfim é outro grande acontecimento no mês de
janeiro. Centenas de baianas com potes de barro contendo água,
vão lavar os degraus da famosa igreja, entoando cantos e preces
nos dialetos africanos, acompanhadas de palmas e toques de atabaques,
num ato de renovação, de respeito, de fé e amor
ao grande Pai Oxalá.
Ricas mucamas de branco
Com flores num só canto
Vão a igreja do Bonfim ofertar
Á gua no pote ao pai Oxalá
Bibliografia:
- O negro na civilização do Brasil - Arthur Ramos
- Folclore negro do Brasil - Arthur Ramos
- Bahia - Imagens da terra do povo - Odorico Tavares
- A sabedoria popular do Brasil - Edison Carneiro
- Ladinos e crioulos - Edison Carneiro
- Ourivesaria Baiana - Paulo Affonso de Carvalho Machado
PESQUISA: Professora e Museóloga Marilda
Silva
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