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Sinopse: E aí, Tem patrocínio? Temos: “José” A Origem Realmente temos o grande Patrocínio – José Maria
do Espírito Santo, brasileiro, mulato, nascido aos nove dias do
mês de outubro de 1853; senhor por parte de pai, escravo por parte
de mãe. Por que PATROCÍNIO? Porque fora batizado no dia 08 de novembro quando solenizava a Igreja Católica o “Patrocínio da Virgem Santíssima”. Zeca, como era chamado, foi trabalhar no comércio como aprendiz de caixeiro, mas o preconceito racial o privou do emprego, porque o público não gostava de ver uma pessoa de cor no balcão. Vinda para a Corte Tinha 14 anos quando ao chegar à Corte, deslumbrado, José do
Patrocínio ainda encontraria alguns espetáculos desagradáveis
e pungentes, pouco dignos da capital de tão vasto Império.
Um deles era o dos escravos, com grandes cubas de madeira à cabeça
indo despejar nos rios, canais e praias da cidade as fezes recolhidas
durante dois ou três dias nos domicílios cariocas. Pelas
ruas, transitavam ainda, com seus rolos de corda, os mesmos truculentos
capitães-do-mato, especialistas em capturar negros fugidos. Dificílimo,
o começo de vida do adolescente José do Patrocínio
na Corte. Patrocínio e a Imprensa Junto com Dermeval da Fonseca publicou os Ferrões, quinzenário
que saiu de 1º de junho a 15 de outubro de 1875, formando um volume
de dez números. Os dois colaboradores se assinavam com os pseudônimos
Notus Ferrão ( Patrocínio ) e Eurus Ferrão ( Dermeval
). Dois anos depois, Patrocínio estava na “Gazeta de Notícias” onde
tinha a seu cargo a “Semana Política ou Parlamentar” que
foi publicada a 26 de fevereiro de l877 e que assinava sob o pseudônimo
Prudhome. No mesmo ano, o poeta e folhetinista descobriu a vocação
de romancista e escreveu Mota Coqueiro ou Pena de Morte (1877), Os Retirantes
(1879) e Pedro Espanhol (1884). Campanha pela Abolição – 1879 Em torno dele formou-se um grande coro de jornalistas e oradores, entre os quais Ferreira de Menezes na Gazeta da Tarde, Joaquim Nabuco, Lopes Trovão, Ubaldino do Amaral, Teodoro Sampaio, Paula Nei, todos da Associação Central Emancipadora. Por sua vez, Patrocínio começou a tomar parte nos trabalhos da Associação. No ano de 1880, Patrocínio não perdia nenhuma reunião no Clube Republicano de São Cristóvão. Na Rua da Cancela, havia a Escola Noturna Gratuita tão cheia de pessoas de cor, a maioria escravos fugidos, que a vizinhança passaria a denominá-la “Quilombo da Cancela”. Em 15 de janeiro de 1881, casou-se com Maria Henriqueta de Sena ( BIBI ) e passou para a Gazeta da Tarde substituindo Ferreira Menezes, que havia morrido. Na verdade tornou-se o novo proprietário do periódico, comprado com a ajuda do sogro. Patrocínio tinha atingido a grande fase de seu talento e de sua atuação social. A 25 de março de 1884, o Ceará inteiro era declarado livre, exatamente no mesmo dia em que, na França, Patrocínio se reunia com cerca de trinta figuras do mundo político e jornalístico francês. Depois de duas viagens ao Ceará e de uma à Europa voltava pela primeira vez à terra natal em 10 de março de 1885, refazendo às avessas o percurso que o trouxera ao Rio de Janeiro. Na volta traz consigo a mãe, a modesta quitandeira de Campos que infelizmente no dia 18 de agosto do mesmo ano morre sem que houvesse visto chegar o dia da liberdade para os negros de sua terra. Sua vida? Igual ou quase igual a de tantas outras trazidas da África. Confederação Abolicionista – 1886 Fundou a Confederação Abolicionista, e redigindo o manifesto assinado também por André Rebouças e Aristídes Lobo a ser apresentado ao Parlamento do Império. O jornal Gazeta da Tarde tornou-se o quartel-general dos confederados. Da redação do jornal a confederação coordenou a luta que se desenrolava em todo o território nacional. Promoveu a propaganda em favor da causa abolicionista. A Confederação tornou-se reconhecida pelos políticos e temida pelos governos. Patrocínio era um dos candidatos da confederação à Câmara Municipal. Em seu discurso ironizou impiedosamente os poderes do Imperador Pedro II. Com entonação satírica, critica a política imperial, ridicularizando os preceitos de divindade que cercavam a figura do monarca: “Sua majestade é o querido de Deus; se Ele o fez firmamento, foi simplesmente porque sua majestade é astrônomo; se fez a natureza, se fez esse canto de terra com esta vegetação... é porque sua majestade é botânico. Se nosso solo tem minas preciosas... se o diamante cintila, o ouro amaraleja; se o carvão de pedra negreja... se há um prisma oculto de baixo de nossos pés, é porque sua majestade é mineralogista. Se há algum de nós, que pensa, que imagina, é porque sua majestade é poeta; se algum de nós trabalha é porque sua majestade é ativo ... todas as grandezas da criação, desta parte da América, existem somente por esta simples razão, porque sua majestade dá à humanidade e a Deus a honra de existir. Sua majestade, portanto,... é obrigado, pela sua própria inteligência e pelo seu muito saber, a responder perante o tribunal da civilização. Nós temos o direito de perguntar-lhe: "Senhor, que fizestes vós do povo brasileiro? “ Patrocínio, mulato, filho de escrava, vindo da senzala, sentia-se o representante dos escravos brasileiros. Foi eleito com grande votação para exercer seu cargo na Câmara. No ano seguinte, 1887, deixava a Gazeta da Tarde, para fundar o jornal Cidade do Rio. A campanha popular pela abolição atingia o ápice. Multiplicam-se os comícios, os discursos, as manifestações de rua. O Milagre da Abolição – 1888 A Princesa Isabel, exercendo a Regência em razão da viagem de D.Pedro II à Europa, critica a repressão policial que o Gabinete Cotegipe destinava aos comícios abolicionistas. Cotegipe é forçado a demitir-se e a princesa coloca em seu lugar João Alfredo, a 07 de março de 1888. Ferreira Viana, nomeado ministro da Justiça, declara em nome do gabinete que o novo governo tem como única finalidade extinguir a escravidão. Todos aplaudem, levantam-se, aclamam. Em meio a ovação, Patrocínio, pálido, voz rouca, os olhos iluminados pelas lágrimas, brada: “ Não peço a palavra, tomo a palavra “. E tinha esse direito. Sua voz era o grito de uma raça oprimida que, cansada de pedir a liberdade, via de repente os objetivos quase conquistados, a luta vencida, a liberdade próxima. No dia 13 de maio de 1888, no Paço da Cidade, sob uma chuva de rosas, D. Isabel, radiante de felicidade, curva-se sobre a mesa e assina o decreto de sua imortalidade e de sua deposição; com uma pena de ouro adquirida, por subscrição pública, cuja lista fora assinada por centenas de pessoas, entre as quais José do Patrocínio. Está extinta a escravidão no Brasil. Ouvindo os gritos e vivas da multidão, arrojou-se aos pés da princesa, transfigurado e agradecido, Patrocínio conclui dez anos de campanha: “ Minh’alma, sobe de joelhos nestes paços”. Quando Patrocínio chegou em casa, a claridade matutina começava a dissipar a escuridão da noite que caíra, densa, sobre aquele dia de milagre. E era outro Brasil que amanhecia. No dia 28 de setembro no aniversário da Lei do Ventre Livre, a princesa Isabel recebe, em grande solenidade, na Capela Imperial, a Rosa de Ouro que lhe fora enviada pelo Papa Leão XIII, como sinal de sua estima à libertadora dos escravos. Chega a República – 1889 Residindo temporariamente em Petrópolis, Patrocínio chega ao Rio na manhã de 15 de novembro, e relata: “Fui ao Campo da Aclamação , reunir-me ao povo disposto a concorrer com a minha palavra e a minha vida em prol da revolução. Mas o Marechal Deodoro já havia penetrado no interior do Quartel-General. Cerca das três horas da tarde, começou, porém, a circular o boato de que a República não estava proclamada, visto como não havia precedido acordo para este fim e grande parte das forças haviam capitulado por mera solidariedade militar. Acho mais regular convidar o povo a acompanhar-nos à Câmara Municipal, para aí proclamar, solenemente, pacificamente, mas decisivamente, a República”. Com isso, José do Patrocínio invocaria para si em artigo o título de “Proclamador Civil da República”. Não lhe fora difícil o assalto à Câmara Municipal. Como vereador, a ela tinha livre acesso. Desterrado no Amazonas Revoltou-se contra o governo férreo de Floriano Peixoto, que visava manter a ordem e a autoridade a qualquer custo. O jornal Cidade do Rio revive de repente. Patrocínio, redige um brilhante artigo intitulado “Mais Sangue”, tomando firmemente o partido dos militares rebelados. Floriano responde decretando o estado de sítio e punindo os signatários do manifesto. José do Patrocínio, Olavo Bilac, Wandelkolk, Pardal Mallet, entre outros, são presos e enviados a Cucuí, às margens do rio Negro, região onde as febres eram terríveis, desoladoras, assoladas pela malária. Em 20 de julho de l897, ano da fundação da Academia Brasileira de Letras, José do Patrocínio inaugurou a cadeira número 21. Um futuro de automotores O futuro dos transportes estava nos veículos automotores: terrestres e aéreos. Patrocínio sabia disso. Tanto que foi o precursor do automobilismo na capital brasileira. Importou de Paris o primeiro automóvel que transitou nas ruas do Rio de Janeiro, motivo de escandalosa atenção. Gente de guarda chuva debaixo do braço pára estarrecida, como se tivesse visto um bicho de Marte. Oito dias depois, o jornalista e alguns amigos arrebentam a máquina contra as árvores da Rua da Passagem. Quem poderia pensar na futura influência do automóvel, diante da máquina quebrada de Patrocínio? Ninguém, absolutamente ninguém! Um sonho desde o seu primeiro ano de acesso à Farmácia, foi a construção do aeróstato dirigível ( o balão Santa Cruz ), por várias vezes recuou da idéia, devido a turbulenta vida de jornalista. Em 12 de dezembro de 1901, uma tempestade devastou a cidade, as chuvas torrenciais com fortes ventos destruíram o hangar erguido em São Cristóvão, no qual estava sendo construído o dirigível Santa Cruz. Mudou-se para um galpão alugado para ganhar tempo. Patrocínio tinha um sonho - enriquecer com seu balão voador, para criar um grande jornal, que colocaria a serviço da educação do povo brasileiro. Esse sonho estava bem vivo em 1903, quando foi chamado a discursar numa recepção oferecida a um brasileiro que chegava da França, onde também vinha tentando dominar a navegação aérea: Alberto Santos Dumont. O canto do cisne Tuberculoso, com febre e os bacilos a minar-lhe o organismo, ainda viveria mais alguns meses, sustentado apenas pelos artigos mal remunerados e pelo sonho impossível do balão Santa Cruz. A 29 de janeiro de 1905, escreve o “Ave Rússia”, saudando a luta dos democratas contra o czarismo. Esse seria o seu canto do cisne, o último artigo que escreveria até o fim. No dia seguinte, resolve preparar mais um artigo. Algo leve, que interessasse ao leitor diário. Escreve: “ Fala-se na organização definitiva de uma sociedade protetora dos animais. Eu tenho pelos animais um respeito egípcio. Penso que eles têm alma, ainda que rudimentar, e que eles têm conscientemente revoltas contra a injustiça humana. Já vi burro suspirar como um justo, depois de brutalmente espancado por um carroceiro que atulhara a carroça com carga para uma quadriga ( carroça para quatro cavalos ), e queria que o mísero animal a arrancasse do atoleir ....” Não terminou a palavra, nem a frase, nem o artigo. Levantou-se e correu para o quarto onde estavam a esposa e o filho José. De pé, disse uma única palavra: “ Sangue “. E morreu. Não acabou apenas o Santa Cruz, vendido aos ferros-velhos do Rio pela família, mas ainda a idéia da estátua àquele de quem Bilac dissera já ter, em vida, a imorredoura cor do bronze imorredouro. O Brasil teve nele um dos momentos mais fulgurantes de sua inteligência e da nobre coragem de lutar pelo ideal de liberdade. E aí, têm Patrocínio? |
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